terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tua voz














A tua voz é porta estandarte
Abre alas com baluarte
Busca tudo o que for arte
Pra se satisfazer

Mega fone, mega potência
Busca perfeição com paciência
Pra em noite de luar
Com harmonia encantar

Tu a possuis, porém não te pertences
Entrega a toda gente
Que tem sede de batuque e alegria
E espalha sorrisos de nostalgia

Rima rica ou rima pobre
Nessas horas não importa
A quem se deve respeitar
Ela só quer cantar...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Rio de lágrimas




        Eu era uma pessoa comum, com uma vida comum igual a tantas outras... Mas um dia dormi chorando e quando acordei estava dentro de uma canoa em um rio de lágrimas. Demorei pra entender toda aquela situação e compreender se eu estava acordada ou ainda dormindo. Começaram a cair pingos salgados no meu rosto e sua textura líquida respondeu minha dúvida: eu não estava sonhando. Mas como havia parado ali? Tentei relembrar todo o caminho anterior a minha chegada aqui, mas só conseguia lembrar que dormi chorando.
        Eu estava presa em uma imensidão, não conseguia ver terra ao meu redor, apenas água salgada. E aqueles pingos que pausadamente caiam do céu, caiam como se fossem bombas ao meu lado. Engraçado, em momento algum tive medo, porque era uma imagem linda de se ver. A cada gota cristalina que parecia cair em câmera lenta, fazia com que eu me acalmasse cada vez mais e conseguisse ver beleza em toda aquela paisagem e situação absurda.
         Mas minha curiosidade foi aumentando e não havia ninguém além de mim que pudesse me dizer onde eu estava. Tive vontade de me jogar na água, de me embrenhar naquele mundo desconhecido e talvez descobrir alguma resposta. Eu também poderia estar engana quanto a estar acordada ou não, e se me jogasse na água poderia, de fato, ter essa certeza. Só que eu não sabia nadar... se fosse sonho eu estava segura, sentiria agonia, falta de ar, mas não morreria. Mas e se não fosse?
          Resolvi ficar na canoa, afinal estava caminhando pra onde o curso das águas de lágrimas me guiava. “Alguma hora vai aparecer algo que faça sentido”. Eu repetia isso como um mantra, talvez com a intenção de me manter calma e sã. Mas nem minhas palavras pareciam fazer mais sentido. Será que estou ficando louca? Que estou delirando? Que estou em coma? As possibilidades começaram a me corroer. Gritei. Não poderia saber quais delas seriam a correta. Parei, respirei e tentei esvaziar minha mente.
          Até que os pingos cessaram e o céu que estava escuro foi se abrindo aos poucos. Tudo começava a clarear. A água salgada e sem movimento, se tornou doce e pude ver peixes brilhantes que pulavam ao redor da canoa. Mas nada daquilo continuava a fazer sentido. Eu devo ter acordado dentro de um livro. Na vida real não é assim que as coisas funcionam.
          E pela primeira vez, senti uma certa liberdade de estar em um lugar sem sentido e de eu não precisar também fazer sentido. Acreditei então que havia criado um lugar só meu, onde eu pudesse ser e fazer o que eu quisesse, nesse mundo eu saberia até nadar. Criei coragem e me joguei no rio. A água tinha a temperatura ideal de um abraço e surpreendentemente eu podia respirar debaixo d´água. E eu me entreguei a esse mundo, não sei se um dia volto. Acho que sempre pertenci a esse lugar e passei muito tempo dormindo e sonhando com mundos diferentes. As lágrimas já não existem, as dúvidas também não. Só a certeza de saber quem sou.



Desenho: Roberta Paredes
Também publicado na revista claraboia nº2: http://revistaclaraboia.blogspot.com/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Preâmbulo do meu desejo



Com a minúcia de um ritual, beije meus pés
Depois massageie-os
Beije meus joelhos, os dois
Beije minhas coxas interna e externamente

Pule para meu umbigo
Passe a língua ao seu redor suavemente
Não deixe muita saliva
Use seus sentidos - todos
Sinta o odor que cada parte do meu corpo exala

Me vire bruscamente, mas com cuidado
Resvale seu nariz no córrego das minhas costas
Deslize as pontas dos dedos em minhas costelas
Me deixe com bolinhas por todo o corpo

Olhe, cheire, deguste, ouça meus seios
Depois beije um por um que é para não rolar ciúmes
Muita atenção ao pescoço
Ele tem o poder de arrepiar todos os meus pêlos

Beije meu queixo, bochechas e suas covas
Minhas olheiras tão marcadas por te esperar
Meus olhos acostumados de te ver no pensamento
Minha testa como um pedido respeitoso
Para que eu abra minhas portas

Encha suas mãos com os meus cabelos
Memorize o nível de sua maciez
Embriague-se com o seu cheiro

Só então, depois de percorrer meus mundos
Beije meus lábios: o primeiro e os segundos...

domingo, 9 de outubro de 2011

Suavemente aterrissas




Suavemente aterrissas em meu tronco
E o que nos separa é apenas um sopro
O espaço torna-se indefinível
Contrariando as leis da física

Falamos apenas uma língua
Que só nossos corpos entendem
Os terremotos, os vulcões a lava quente
E os beijos que brotam e viram flor

Sei que me ouves mesmo quando calo
Pois teus olhos me interpretam
Quando passeiam por cada curva
E desembocam na carne dura

Tão frágil é a estrutura
Que sustenta tamanha erupção
Mas que sabe como ninguém
Manejar os meus desejos
Brincar com meus segredos

E muito mais do que nossa sina
Sabe bem como tratar-me
Sendo dama ou messalina

Sabe cortejar meus anseios
Fazendo deles tua aventura
Meu menino, eu sou a tua cura

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Não cicatriza



Como um cão sarnento que lambe suas feridas na esperança de que elas sarem
Eu lambo teus caminhos na esperança de que eles nunca se desvencilhem dos meus
E essa ferida é tão profunda e tão enraizada que por mais que eu cuide ela não sara

Mas a vida é mesmo assim, ela faz questão de enfiar o dedo onde mais dói
Que é pra você não esquecer em nenhum momento que está vivo
Que é frágil, passageiro e extremamente volúvel aos seus caprichos

Mas eu não reclamo, a ferida já se tornou minha principal companhia
É ela que me faz despertar quando às vezes quero mergulhar na apatia 
É ela que grita, lateja, arde pedindo por movimento e alguma alegria

E eu faço questão de escondê-la, tapá-la com uma peneira invisível
Faço pontos com linhas de pensamentos, jogo areia e sal do firmamento
Tudo isso em forma de mantra para eu não lembrar do que já havia esquecido...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 

Sample text

Sample Text

Sample text